A MELHORIA DOS MEIOS DE LOCOMOÇÃO COMO SOLUÇÃO PARA AS DIFICULDADES DE HABITAÇÃO NA LONDRES DO SÉCULO XX

Logo ao iniciar-se o novo século, Charles Booth publicou outro documento exaltando agora as virtudes da "melhoria nos meios de locomoção como um primeiro passo para a solução das dificuldades de habitação em Londres". Embora a Comissão Real de 1885 recomendasse que as classes trabalhadoras fossem realojadas no centro, durante a década de 90, essa ideia foi rapidamente posta de lado.
A cidade dispersou-se e desconcentrou-se. Novas casas, novas fábricas, foram construídas em sua periferia. Novas tecnologias do transporte - o bonde elétrico, o trem elétrico de interligação com o centro, o metrô, o ônibus - permitiram que esse processo de suburbanização se concretizasse.
Acima de tudo, o crescimento da construção habitacional com fins lucrativos ao redor de Londres dependia do transporte sobre trilhos.
Em 1912,quando a UERL assumiu a direção da London General Omnibus Company, começou a serem implantadas linhas subsidiárias de ônibus a partir dos terminais do metrô, conforme o modelo original de Yerkes para o plano dos bondes. "Onde terminam os trilhos começam os ônibus", ampliando cinco vezes mais a área servida.
Em fins da década de 30 - quando os últimos ramais do metrô foram concluídos - o sistema como um todo atingira o seu limite.
Em seu livro, que tanta influência teve, The Home I Want (O Lar que Eu Quero, 1918), este reformador do sistema habitacional que foi o capitão Reiss iria afirmar que "todos em geral concordam, até os que acreditam na iniciativa privada, que não há outra política a adotar de imediato, no pós-guerra senão a da construção promovida por autoridade local”. Quase da noite para o dia,o problema da habitação para as classes trabalhadoras tornou-se de responsabilidade pública. O resultado, entre as duas guerras mundiais, foi o aparecimento de mais de um milhão de moradias construídas pelas autoridades locais.
O relatório apresentado pelo Comitê da Habitação, presidido por Sir John Tudor Walters, em 1918, constitui um dos fatores que mais poderosamente influiu no desenvolvimento da cidade britânica do século XX. Na essência, eram quatro as propostas por ele apresentadas. Primeira: (...)autoridades locais subsidiadas, evidentemente, pelo governo - poderiam executar perto de 500.000 casas num curto espaço de tempo,100.000 por ano; (...) Segunda: que as autoridades locais deviam construir principalmente em terra barata e não urbanizada, (...) Terceira: densidades máximas de doze casas unifamiliares por acre, (...) Quarta: que para garantir-se a boa qualidade do projeto, as plantas deveriam ser elaboradas por arquitetos e aprovadas pelos delegados da Junta do governo local e seu equivalente escocês.
O relatório representou um triunfo pessoal para Unwin. Todas as ideias básicas, extraídas do seu panfleto Nothing Gained by Overcrowding! (Nada se ganhou com a Superlotação!,1912), foram adotadas: distância mínima de 70 pés entre uma casa e outra para garantir a luz solar no inverno, uso de sobrados geminados em fileiras de curta extensão, um jardim para cada família, preservação do fundo do terreno vazio como espaço recreacional, enfatização da necessidade de becos para as crianças brincarem a salvo.
Antes da Primeira Grande Guerra, a esmagadora maioria da população morava em casas alugadas. Terminado o conflito, numerosos fatores conspiraram para persuadir milhões de indivíduos de classe média a comprarem suas casas. Os bons salários pagos a uma ampla camada da população - especialmente ao novo grupo dos colarinhos-brancos e aos trabalhadores qualificados de colarinho-azul, entraram em rápida ascensão.
Tendo o Royal Institute of British Architects banido a prática da arquitetura com fins lucrativos em 1920,a vasta maioria dessas casas - quase três milhões delas entre as duas guerras - foi projetada por assistentes não qualificados ou teve seu modelo extraído de livros ou revistas. Só na década de 30 começaram as firmas maiores a empregar arquitetos.
Mas os arquitetos não gostaram, não pouparam insultos aos subúrbios, cuja falha principal estava em divergirem de todos os padrões básicos do bom gosto: o neogeorgiano ou o moderno sem concessões adotado pelos jovens membros do CIAM. Ao invés disso, seu aconchegante vernacular de imitação derivava de uma tradição arquitetônica muito mais antiga, iniciada por John Nash em Blaise Hamlet e Park Village West, e desenvolvida como grande arte por vitorianos tardios como Philip Webb, Norman Shaw e Raymond Unwin.
Clough William-Ellis, em England and the Octopus (A Inglaterra e o Polvo, 1928), descrevia as urbanizações "como piolhos sobre uma tênia".
Thomas Sharp, talvez o escritor que mais prolificamente se ocupou de problemas urbanísticos no início dos anos 30,assumiu uma linha mais dura. O remédio virá através dos "grandes e novos blocos de prédios de apartamentos que alojarão parte considerável da população da cidade futura". Foi assim que Sharp aderiu às fileiras corbusianas, distanciando-se em definitivo da tradição cidade-jardim.
Na verdade, um sentimento partilhava ele, na época, com os corbusianos e os comentadores em geral: o horror ao que Anthony King chamou de democratização do campo, ou seja, a invasão pela classe média baixa e pelo operariado de uma área até então reservada a uma elite aristocrática e classe média alta.
Neville Chamberlain, ao tornar-se primeiro-ministro em fins de 1937, imediatamente pôs em atividade uma Comissão Real para a Distribuição Geográfica da População Industrial, presidida por Sir Anderson Montague-Barlow. Em seu depoimento para a Comissão Barlow, Pick chegara à conclusão de que, se Londres crescesse além do limite mágico de 12 a 15 milhas estabelecido pelo sistema de metrô, necessariamente deixará de ser intrinsecamente Londres, um conceito unitário. Portanto, afirmava, Londres precisa parar de crescer.


HALL, Peter Geoffrey. Cidades do Amanhã. São Paulo, Perspectiva, 1988. Cap 3: A Cidade do Desvio Variegado, p. 57 a 99.