A LONDRES APAVORANTE DO SÉCULO XIX

          "O austero florentino poderia ter acrescentado vários outros horrores à sua visão do inferno com uma breve permanência num cortiço londrino. (...) Cada quarto, nessas podres e fétidas moradias coletivas, aloja uma família, muitas vezes duas. Um fiscal sanitário registra em seu relatório haver encontrado, num porão, o pai, a mãe, três crianças e quatro porcos! Noutro, um missionário encontrou um homem com varíola, a mulher na convalescença de seu oitavo parto, e as crianças zanzando de um lado para outro, seminuas e cobertas de imundície. Aqui estão sete pessoas morando numa cozinha no subsolo, e ali mesmo, morta, jaz uma criancinha. Em outro local estão uma pobre viúva, seus três filhos e o cadáver de uma criança morta há treze dias. Pouco antes, o marido, um cocheiro, se havia suicidado(...)”
 Para analisar a situação dos cortiços de Londres, foi realizada, uma nomeação de uma Comissão Real de peso, a Comissão Real britânica de 1885, na qual ficou plenamente evidenciado que o normal, em Londres, era uma família ocupar um quarto, e que essa família podia ser até mesmo de oito pessoas.
Foram elaboradas várias leis para melhorar as condições de moradia das pessoas, como a Lei Torrens (Lei para Moradias de Artesãos e Operários, de 1868, que permitia às autoridades locais construirem novas moradias para as classes trabalhadoras) e a Lei Cross (Lei para a Melhoria das Moradias de Artesãos e Operários, de 1875, que lhes permitia demolir vastas áreas ocupadas por habitações inadequadas e realojar seus moradores), tendo ambas permanecido por largo tempo letra morta. A Lei para a Moradia das Classes Trabalhadoras de 1885 implementou tais recomendações. Também ampliou a antiga Lei para Casas de Cômodos, de 1851, de autoria de Lorde Shaftesbury, o problema, todavia, foi que as autoridades locais não moveram palha.
Começou, então, um período de depressão, violência e ameaça de insurreição. Os fabianos, apóstolos do gradualismo, aos quais Beatrice Webb aderiu prontamente, produziram um manifesto de primeira hora, onde se percebia a marca de George Bernard Shaw: "Que o governo estabelecido não tenha o direito de denominar-se Estado, tanto quanto a fumaça de Londres não tem o direito de denominar-se ar."; "Que é preferível enfrentarmos uma guerra civil do que um novo século de sofrimentos como foi o presente". H. M. Hyndman, líder da Social Democratic Foundation, escrevia, no mesmo ano, que "mesmo entre homens e mulheres inúteis, que a si próprios se apelidam de ‘sociedade’, correntes internas de mal-estar podem ser detectadas”.
Livros, panfletos e volantes metem-se por oficinas e sótãos, que discutem o problema em toda a sua extensão e profundidade. Teorias extraídas da grande obra sobre o Capital, do Dr. Karl Marx, ou do programa dos socialdemocratas da Alemanha e dos coletivistas da França, estão sendo difundidas de forma barata e legível.
"Entre as mais feias excrescências da sociedade moderna acham-se as numerosas gangues de rufiões organizados...que se pavoneiam por nossas grandes cidades e, muitas vezes, não contentes de espancarem-se mutuamente, molestam o pacífico transeunte". A mais famosa delas, a "High Rip Gang".
O verdadeiro terror que dominava a classe média era de que a classe trabalhadora se sublevasse. Berlim, onde a população estava crescendo a uma velocidade quase igual à norte-americana era, como Paris, populacionalmente saturada; seu crescimento foi acomodado em "casernas de aluguel" de cinco pavimentos, as Mietskaserne. Esse tipo de urbanização, iniciado, ao que parece, por Frederico, o Grande, para alojar famílias de soldados, generalizou-se em decorrência do plano urbano do burgomestre Jakob Hobrecht, em 1858. Aparentemente projetado para promover a integração social, com ricos e pobres instalados no mesmo bloco de edifícios, ele simplesmente produziu uma saturação populacional lastimável, conforme cálculos do pioneiro do planejamento britânico T. C. Horsfall em 1903.
Patrick Abercrombie, o planejador britânico, ao visitar Berlim pouco antes da Primeira Grande Guerra, ficou intrigado com o contraste que essa cidade oferecia em relação a Londres: tanto em Londres como em Berlim, aumentava o temor de que a população urbana fosse, de certo modo, biologicamente incapaz. Na Primeira Grande Guerra, a Comissão Verney reafirmava que a compleição física do segmento urbano da Grã-Bretanha tendia a deteriorar-se, mantendo-se unicamente graças ao recrutamento feito no interior. Se deduziu que a população urbana iria falhar em sua auto-reprodução, argumento utilizado primeiramente por Georg Hansen em seu livro Die drei Bevölkerungsstufen (As Três Etapas do Crescimento Populacional), de 1890, e desenvolvido por Oswald Spengler no clássico The Decline of the West (A Decadência do Ocidente), de 1918.
A industrialização e a urbanização criaram uma nova série de relações sociais e uma nova série de percepções sociais. Quanto a isso, não podia haver dúvida.


HALL, Peter Geoffrey. Cidades do Amanhã. São Paulo, Perspectiva, 1988.
Cap 2: A Cidade da Noite Apavorante, p. 17 a 53.