Para
analisar a situação dos cortiços de Londres, foi realizada, uma nomeação de uma
Comissão Real de peso, a Comissão Real britânica de 1885, na qual ficou
plenamente evidenciado que o normal, em Londres, era uma família ocupar um
quarto, e que essa família podia ser até mesmo de oito pessoas.
Foram elaboradas várias leis para
melhorar as condições de moradia das pessoas, como a Lei Torrens (Lei para
Moradias de Artesãos e Operários, de 1868, que permitia às autoridades locais
construirem novas moradias para as classes trabalhadoras) e a Lei Cross (Lei
para a Melhoria das Moradias de Artesãos e Operários, de 1875, que lhes
permitia demolir vastas áreas ocupadas por habitações inadequadas e realojar seus
moradores), tendo ambas permanecido por largo tempo letra morta. A Lei para a
Moradia das Classes Trabalhadoras de 1885 implementou tais recomendações.
Também ampliou a antiga Lei para Casas de Cômodos, de 1851, de autoria de Lorde
Shaftesbury, o problema, todavia, foi que as autoridades locais não moveram
palha.
Começou, então, um período de
depressão, violência e ameaça de insurreição. Os fabianos, apóstolos do
gradualismo, aos quais Beatrice Webb aderiu prontamente, produziram um
manifesto de primeira hora, onde se percebia a marca de George Bernard Shaw:
"Que o governo estabelecido não tenha o direito de denominar-se Estado,
tanto quanto a fumaça de Londres não tem o direito de denominar-se ar.";
"Que é preferível enfrentarmos uma guerra civil do que um novo século de
sofrimentos como foi o presente". H. M. Hyndman, líder da Social
Democratic Foundation, escrevia, no mesmo ano, que "mesmo entre homens e
mulheres inúteis, que a si próprios se apelidam de ‘sociedade’, correntes internas
de mal-estar podem ser detectadas”.
Livros, panfletos e volantes metem-se
por oficinas e sótãos, que discutem o problema em toda a sua extensão e
profundidade. Teorias extraídas da grande obra sobre o Capital, do Dr. Karl
Marx, ou do programa dos socialdemocratas da Alemanha e dos coletivistas da
França, estão sendo difundidas de forma barata e legível.
"Entre as mais feias excrescências
da sociedade moderna acham-se as numerosas gangues de rufiões organizados...que
se pavoneiam por nossas grandes cidades e, muitas vezes, não contentes de
espancarem-se mutuamente, molestam o pacífico transeunte". A mais famosa
delas, a "High Rip Gang".
O verdadeiro terror que dominava a
classe média era de que a classe trabalhadora se sublevasse. Berlim, onde a
população estava crescendo a uma velocidade quase igual à norte-americana era,
como Paris, populacionalmente saturada; seu crescimento foi acomodado em
"casernas de aluguel" de cinco pavimentos, as Mietskaserne. Esse tipo
de urbanização, iniciado, ao que parece, por Frederico, o Grande, para alojar
famílias de soldados, generalizou-se em decorrência do plano urbano do
burgomestre Jakob Hobrecht, em 1858. Aparentemente projetado para promover a
integração social, com ricos e pobres instalados no mesmo bloco de edifícios,
ele simplesmente produziu uma saturação populacional lastimável, conforme
cálculos do pioneiro do planejamento britânico T. C. Horsfall em 1903.
Patrick Abercrombie, o planejador
britânico, ao visitar Berlim pouco antes da Primeira Grande Guerra, ficou
intrigado com o contraste que essa cidade oferecia em relação a Londres: tanto
em Londres como em Berlim, aumentava o temor de que a população urbana fosse,
de certo modo, biologicamente incapaz. Na Primeira Grande Guerra, a Comissão
Verney reafirmava que a compleição física do segmento urbano da Grã-Bretanha
tendia a deteriorar-se, mantendo-se unicamente graças ao recrutamento feito no
interior. Se deduziu que a população urbana iria falhar em sua auto-reprodução,
argumento utilizado primeiramente por Georg Hansen em seu livro Die drei
Bevölkerungsstufen (As Três Etapas do Crescimento Populacional), de 1890, e
desenvolvido por Oswald Spengler no clássico The Decline of the West (A
Decadência do Ocidente), de 1918.
A industrialização e a urbanização
criaram uma nova série de relações sociais e uma nova série de percepções
sociais. Quanto a isso, não podia haver dúvida.
HALL, Peter Geoffrey.
Cidades do Amanhã. São Paulo, Perspectiva, 1988.
Cap 2: A Cidade da Noite Apavorante, p. 17 a 53.
Cap 2: A Cidade da Noite Apavorante, p. 17 a 53.